Quando ninguém está olhando, você ainda escolheria essa vida?

Sobre disciplina, deslizes e a difícil tarefa de descobrir para quem estamos tentando mudar

Há algum tempo, tenho tentado construir uma vida mais saudável.

Comer melhor.

Beber menos álcool.

Caminhar todos os dias.

Cuidar mais do meu corpo.

Hoje, comecei a fazer calistenia.

No papel, parece simples.

Uma sequência de boas escolhas.

Na prática, não é.

Existem dias em que eu como melhor e dias em que não consigo.

Dias em que caminho com disposição e outros em que preciso me convencer a sair de casa.

Existem deslizes.

Falhas.

Excessos.

Preguiça.

E aquela sensação incômoda de que talvez eu não esteja evoluindo tão rápido quanto gostaria.

Quando decidimos mudar alguma coisa em nós, normalmente imaginamos a nossa melhor versão.

A pessoa disciplinada.

Constante.

Focada.

Aquela que acorda e simplesmente faz o que precisa ser feito.

Mas o processo não acontece assim.

Pelo menos o meu não.

Ele acontece entre acertos e erros.

Entre dias em que me orgulho de mim e outros em que me pergunto por que ainda tenho tanta dificuldade com coisas que pareciam tão simples quando decidi começar.

Talvez uma das partes mais difíceis de mudar seja aceitar que um deslize não apaga todo o caminho.

Que uma escolha ruim não transforma todas as anteriores em inúteis.

Que não precisamos recomeçar do zero toda vez que falhamos.

Precisamos apenas continuar.

Mas, no meio desse processo, uma pergunta começou a me incomodar:

Quando ninguém está olhando, você ainda escolheria essa vida?

Li essa frase e ela ficou comigo.

Porque imediatamente pensei em tudo o que tenho tentado fazer.

A caminhada.

A alimentação.

A bebida.

O exercício.

O corpo que quero construir.

A vida que quero viver.

E então veio uma dúvida um pouco mais desconfortável:

Estou fazendo tudo isso por mim?

Ou existe uma parte de mim que também quer mostrar para os outros que está conseguindo?

Talvez a resposta não seja tão bonita quanto gostaríamos.

Porque existe algo prazeroso em ser percebida.

Em ouvir que estamos diferentes.

Que emagrecemos.

Que estamos mais bonitas.

Mais disciplinadas.

Mais saudáveis.

Mais fortes.

Existe satisfação em mostrar evolução.

E talvez não exista nada de errado nisso.

O problema começa quando o olhar de fora passa a ser mais importante do que aquilo que sentimos por dentro.

Quando a caminhada perde valor se ninguém souber que fizemos.

Quando o treino parece menos importante se ninguém perceber mudança no nosso corpo.

Quando comer bem deixa de ser cuidado e vira uma forma de provar disciplina.

Quando a nossa própria vida começa a parecer uma apresentação.

Foi aí que percebi que talvez exista outra mudança acontecendo além da física.

Uma mudança mais silenciosa.

Aprender a fazer algumas coisas sem precisar contar.

Aprender a continuar mesmo quando ninguém percebe.

Aprender a encontrar satisfação em cumprir uma promessa que fiz para mim mesma.

Porque existe uma diferença enorme entre construir uma vida que parece boa e construir uma vida que realmente nos faz bem.

E talvez essa diferença apareça justamente quando não existe plateia.

Quando ninguém está olhando.

Quando ninguém vai elogiar.

Quando ninguém vai perguntar quantos quilômetros caminhamos.

Quando ninguém vai notar que recusamos mais uma bebida.

Quando o corpo ainda não mudou o suficiente para que alguém perceba.

É nesse momento que talvez descubramos o verdadeiro motivo.

Eu ainda não sei se tudo o que faço é completamente por mim.

Provavelmente não.

Talvez exista em mim uma parte que queira ser vista.

Que queira provar.

Que queira mostrar que está mudando.

Mas estou começando a entender que não preciso esperar ter uma motivação perfeita para continuar.

Posso apenas prestar atenção.

Observar.

Perguntar.

Para quem estou fazendo isso hoje?

E, aos poucos, tentar deslocar o centro.

Do olhar dos outros para o meu.

Da aparência da mudança para a experiência de mudar.

Do resultado para o processo.

Porque talvez superar não seja nunca mais falhar.

Talvez seja falhar e não abandonar a si mesma.

Talvez disciplina não seja fazer tudo perfeitamente todos os dias.

Talvez seja continuar retornando.

À caminhada.

Ao treino.

À alimentação que faz bem.

À escolha de beber menos.

Ao corpo que quero cuidar.

À pessoa que quero me tornar.

Mesmo depois de um deslize.

Mesmo depois de uma semana ruim.

Mesmo quando ninguém percebe.

Hoje comecei a fazer calistenia.

Não sei ainda como meu corpo vai responder.

Não sei quanto tempo vou levar para enxergar resultados.

Não sei quantas vezes ainda vou falhar nesse processo.

Mas talvez exista uma pergunta mais importante do que saber quando os resultados vão chegar.

Se ninguém nunca visse a mudança, eu ainda gostaria da pessoa que estou me tornando?

Quero que a resposta, um dia, seja simples.

Sim.

Não porque alguém percebeu.

Não porque alguém elogiou.

Não porque consegui provar alguma coisa.

Mas porque, quando ninguém estava olhando, eu continuei um passo por vez escolhendo essa vida.

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