Quando você entende que a autorização que faltava precisava vir de você
Às vezes, passamos tanto tempo esperando a permissão dos outros que nem percebemos que a porta já estava aberta.
Esperamos aprovação para mudar de caminho, começar um projeto, terminar uma relação, dizer “não”, descansar, viajar, escolher uma profissão diferente ou simplesmente viver de acordo com aquilo que faz sentido para nós.
Eu percebi que fiz isso durante muito tempo.
Busquei validação externa para escolhas que, no fundo, pertenciam a mim.
Muitas vezes esperei a aprovação do meu marido para fazer alguma coisa que eu queria. Em outras, deixei de fazer por medo do julgamento das pessoas, por receio do que poderiam pensar ou dizer.
E houve também momentos em que me anulei.
Fiz o que o outro queria.
Abri mão do que eu queria.
Cedi, silenciei, esperei.
Nem sempre porque alguém estivesse me impedindo diretamente, mas porque, de alguma forma, eu acreditava que precisava que o outro compreendesse, concordasse ou aprovasse para que a minha escolha fosse legítima.
Hoje consigo perceber algo que durante muito tempo não enxerguei:
a autorização que eu esperava dos outros precisava vir de mim.
Quando a validação se transforma em prisão
Não há nada de errado em desejar apoio.
Queremos ser compreendidos pelas pessoas que amamos. Queremos sentir que elas caminham ao nosso lado e que nossas escolhas não irão decepcioná-las.
O problema começa quando a aprovação do outro deixa de ser algo desejável e passa a ser uma condição para viver.
Durante muito tempo, perguntas como estas fizeram parte das minhas decisões:
“O que vão pensar de mim?”
“Será que ele vai concordar?”
“Será que vão entender?”
“E se eu decepcionar alguém?”
“Será que eu deveria mesmo fazer isso?”
Quando vivemos dessa maneira, pouco a pouco deixamos de perguntar:
“O que eu quero?”
E passamos a perguntar apenas:
“O que esperam de mim?”
Talvez seja assim que começamos a nos abandonar sem perceber.
Não acontece necessariamente em uma grande decisão.
Às vezes, acontece em pequenas escolhas repetidas todos os dias.
Quando deixamos para depois aquilo que gostaríamos de fazer.
Quando dizemos sim querendo dizer não.
Quando desistimos de uma ideia antes mesmo de tentar porque imaginamos que alguém não irá aprovar.
Quando nos acostumamos tanto a considerar todos ao nosso redor que deixamos de nos incluir na própria lista de prioridades.
Em algum momento, continuar esperando também se torna uma escolha.
E essa foi uma percepção difícil para mim.
Porque significa reconhecer que nem sempre alguém estava fechando a porta.
Muitas vezes, eu apenas estava esperando que outra pessoa dissesse que eu poderia atravessá-la.
Quantas coisas deixamos de viver esperando aprovação?
Quando comecei a olhar para isso com mais sinceridade, algumas perguntas surgiram.
Quantas coisas deixei de fazer esperando aprovação?
Quantas decisões adiei porque queria ter certeza de que alguém concordaria comigo?
Quantas vezes deixei de experimentar alguma coisa por medo do julgamento dos outros?
Quantas vezes me anulei para fazer aquilo que outra pessoa queria?
E quantas vezes deixei de escolher a mim mesma para preservar expectativas que nem sequer eram minhas?
Essas perguntas não aparecem para que eu culpe alguém.
Elas aparecem para que eu assuma a responsabilidade sobre a minha própria vida.
Porque existe uma diferença importante entre reconhecer como as relações nos influenciam e entregar a elas completamente o poder de decidir quem seremos.
Eu posso ouvir.
Posso considerar opiniões.
Posso respeitar quem pensa diferente.
Posso reconhecer as preocupações de quem me ama.
Mas, no final, existem decisões que apenas eu posso tomar.
E existem consequências que apenas eu vou viver.
Nem todo mundo vai compreender a sua liberdade
Uma das partes mais difíceis de aprender a escolher por si mesma é aceitar que nem todo mundo compreenderá.
E isso não significa necessariamente falta de amor.
Cada pessoa enxerga a vida a partir da própria história, dos próprios medos, valores e experiências.
Aquilo que representa liberdade para mim pode representar risco para outra pessoa.
Aquilo que eu sinto como crescimento pode parecer exagero ou irresponsabilidade aos olhos de alguém.
Aquilo que hoje faz sentido para mim pode contrariar a imagem que algumas pessoas construíram de quem eu deveria ser.
Mas existe uma forma mais madura de liberdade que começa quando entendemos:
eu não preciso convencer todo mundo para poder escolher.
Liberdade não é ignorar as pessoas.
Também não é fazer tudo o que queremos sem considerar consequências.
Liberdade é conseguir ouvir o outro sem desaparecer dentro da opinião dele.
É escolher sabendo que precisaremos sustentar aquilo que escolhemos.
A permissão que estava faltando era a minha
Hoje percebo que talvez a última pessoa de quem eu precisava conquistar a permissão fosse justamente a versão de mim que aprendeu durante tantos anos a pedir autorização.
A versão que precisava ter certeza.
A versão que buscava aprovação.
A versão que acreditava que se escolher poderia significar decepcionar alguém.
A versão que, muitas vezes, confundiu amor com abrir mão de si mesma.
E foi então que a pergunta começou a mudar.
Em vez de:
“Será que vão permitir?”
Passei a perguntar:
“Eu me permito?”
Eu me permito tentar mesmo sem garantias?
Eu me permito mudar de opinião?
Eu me permito frustrar algumas expectativas para não continuar frustrando a mim mesma?
Eu me permito descansar sem acreditar que preciso merecer?
Eu me permito dizer não sem escrever uma longa justificativa?
Eu me permito fazer algo simplesmente porque aquilo faz sentido para mim?
Eu me permito ser diferente da versão de mim que os outros aprenderam a conhecer?
Essas perguntas têm feito parte de um processo muito maior que estou vivendo atualmente.
Meu desafio não é apenas sobre o meu corpo
Quando comecei meu desafio de 365 dias, poderia parecer que ele era apenas sobre caminhar, correr, me movimentar ou cuidar do meu corpo.
Mas, com o passar dos dias, percebi que existe algo muito mais profundo acontecendo.
Esse desafio tem me ensinado a olhar para mim.
A perceber o que eu quero.
A reconhecer aquilo de que preciso.
E, principalmente, a aprender a me priorizar com constância.
Todos os dias, quando escolho continuar, existe uma pequena decisão acontecendo.
Eu estou me escolhendo.
Não porque todas as outras pessoas deixaram de importar.
Não porque me tornei indiferente às necessidades de quem está ao meu redor.
Mas porque estou aprendendo que eu também preciso ocupar um espaço na minha própria vida.
Durante muito tempo, priorizar o outro parecia natural.
Escolher a mim mesma, às vezes, parecia egoísmo.
Hoje começo a compreender que existe uma enorme diferença entre ser egoísta e deixar de se abandonar.
Cuidar de mim não significa deixar de amar os outros.
Significa finalmente me incluir nesse amor.
E talvez seja por isso que este desafio tenha se tornado tão importante para mim.
Não é apenas sobre quantos quilômetros caminho.
Não é sobre velocidade.
Não é apenas sobre disciplina física.
É sobre me tornar alguém que olha para si mesma e pergunta:
“O que eu preciso hoje?”
E depois ter coragem de responder.
Um passo por vez.
Um dia por vez.
Uma escolha por vez.
Se permitir também exige coragem
Existe uma romantização da liberdade como se escolher a nós mesmos fosse sempre leve.
Não é.
Às vezes traz culpa.
Traz medo.
Traz dúvidas.
Pode exigir conversas difíceis.
Pode mudar relações.
Pode fazer com que algumas pessoas estranhem a nossa postura.
Principalmente quando estavam acostumadas com uma versão nossa que sempre cedia, se explicava, aceitava ou colocava todos antes de si.
Por isso, permitir-se não significa deixar de sentir medo.
Significa não entregar ao medo o poder de decidir tudo.
Coragem não é ausência de insegurança.
Às vezes, coragem é simplesmente reconhecer:
“Eu ainda estou com medo, mas não quero mais abandonar a mim mesma para continuar sendo aceita.”
A liberdade começa de dentro para fora
Podemos mudar de cidade, de país, de relacionamento, de trabalho ou de rotina e ainda continuar presos à mesma necessidade de aprovação.
Porque algumas prisões não possuem paredes.
São construídas com culpa.
Medo de rejeição.
Necessidade de agradar.
Dificuldade de confiar na própria percepção.
Por isso, hoje vejo liberdade de outra forma.
Liberdade é aprender a escutar a minha própria voz no meio de tantas opiniões.
É construir critérios próprios.
É compreender que posso amar alguém profundamente e ainda assim fazer escolhas diferentes daquelas que essa pessoa faria por mim.
É perceber que pertencimento não deveria exigir o desaparecimento de quem eu sou.
E é assumir que ninguém poderá viver a minha vida no meu lugar.
As consequências das escolhas que faço serão minhas.
Mas as consequências das escolhas que deixo de fazer também serão.
Por isso, participar conscientemente da construção da minha própria vida talvez seja uma das maiores responsabilidades que posso assumir.
Eu não preciso esperar mais uma autorização
Talvez ninguém venha entregar um papel dizendo:
“Agora você está autorizada a viver como deseja.”
Talvez não exista o momento perfeito.
Talvez nem todos entendam.
Talvez algumas pessoas discordem.
Mas hoje começo a compreender que posso seguir mesmo assim.
Não de maneira impulsiva.
Não desconsiderando quem amo.
Mas com consciência, responsabilidade e respeito pelo que existe dentro de mim.
Se permitir não significa ter todas as respostas.
Significa começar a agir de acordo com aquilo que você já sabe sobre si.
A liberdade que buscamos nem sempre chega quando alguém abre uma porta.
Às vezes, ela começa quando percebemos que a porta nunca esteve realmente trancada.
Nós apenas estávamos esperando uma permissão que ninguém poderia nos dar.
E talvez uma das escolhas mais importantes da vida comece silenciosamente, no momento em que deixamos de perguntar se os outros aprovam e conseguimos finalmente dizer a nós mesmos:
Eu me permito.


