O difícil não é escolher. É sustentar a escolha.

A liberdade de não precisar convencer ninguém.  

Durante muito tempo, eu achei que liberdade era conseguir escolher.

Escolher o que eu queria fazer.
Para onde ir.
Quando dizer sim.
Quando dizer não.
Escolher aquilo que fazia sentido para mim, mesmo quando não fazia sentido para outras pessoas.

E, de certa forma, é.

Existe muita liberdade no momento em que entendemos que não precisamos da autorização de ninguém para viver a nossa própria vida.

Mas tenho percebido que existe uma etapa depois disso.

Talvez até mais difícil.

Porque escolher pode acontecer em um instante.

Sustentar uma escolha acontece todos os dias.

É continuar mesmo quando alguém questiona.

É ouvir uma opinião diferente sem transformar aquilo em dúvida sobre nós mesmas.

É não sentir que precisamos explicar, justificar ou convencer o outro para que nossa escolha continue sendo válida.

Durante muito tempo, busquei validação fora de mim.

Talvez eu nem sempre perguntasse:

“Posso fazer isso?”

Mas, de outras formas, continuava perguntando:

“Você acha que estou certa?”

“Você entende por que quero isso?”

“Você faria o mesmo?”

E comecei a perceber que a necessidade de convencer também pode ser uma forma de continuar procurando aprovação.

Hoje quero aprender outra coisa:

ouvir os outros sem deixar de me ouvir.

Nós também criamos aquilo que vivemos

Tenho pensado muito sobre como nossas escolhas criam a nossa vida.

E não estou falando apenas das grandes decisões.

Muitas vezes, criamos o que vivemos através das pequenas escolhas que repetimos todos os dias.

Daquilo que priorizamos.

Daquilo que adiamos.

Daquilo em que colocamos nosso tempo, nossa energia e nosso dinheiro.

Daquilo que aceitamos.

Daquilo que acreditamos ser possível para nós.

E até de escolhas que fazemos sem perceber.

Cada vez mais acredito que, consciente ou inconscientemente, participamos da criação da realidade que vivemos.

Talvez nem sempre percebamos isso enquanto estamos no meio do caminho.

Mas, quando olhamos para trás, conseguimos enxergar quantas coisas que fazem parte da nossa vida hoje começaram muito antes.

Em um pensamento.

Em um desejo.

Em uma decisão.

Em uma escolha repetida tantas vezes que, aos poucos, começou a construir uma nova realidade.

E hoje, enquanto escrevo este texto, estou vivendo uma dessas cenas.

Estou na praia, na Itália, com meu marido.

Conhecendo um lugar novo.

Vivendo algo que, durante muito tempo, fez parte dos meus sonhos.

Às vezes o sonho já existe, mas ainda não virou prioridade

Quando eu sonhava em vir morar na Europa, viajar sempre esteve dentro desse sonho.

Eu imaginava conhecer novos lugares, descobrir novas cidades, culturas, praias e paisagens.

Imaginava a possibilidade de estar perto de tantos lugares que antes pareciam tão distantes.

Depois que nos mudamos, porém, a vida aconteceu.

Durante aproximadamente dois anos, praticamente não viajamos.

E hoje consigo olhar para isso de outra maneira.

Não era porque não podíamos sonhar.

Não era porque viajar tinha deixado de ser importante.

Nós simplesmente estávamos fazendo outras escolhas.

Existiam outras prioridades.

Nosso tempo, nossa energia e nossos recursos estavam indo para outras partes da nossa vida.

E aquelas escolhas também estavam criando a realidade que estávamos vivendo.

Até que começamos a escolher diferente.

Percebemos que, se conhecer novos lugares fazia parte da vida que queríamos construir, precisaríamos também começar a dar espaço para isso.

Precisávamos transformar um desejo em prioridade.

E foi isso que fizemos.

A vida também muda quando nossas prioridades mudam

Talvez seja por isso que estar aqui hoje tenha um significado tão especial para mim.

Não é apenas uma viagem para a praia.

É olhar ao redor e perceber:

isso também fazia parte da vida que um dia eu imaginei.

E agora eu estou vivendo.

Não aconteceu de uma hora para outra.

Antes desta praia existiram muitas escolhas.

Existiu a escolha de sair do Brasil.

A escolha de começar novamente.

A escolha de permanecer quando foi difícil.

A escolha de construir uma vida aqui.

E agora existe a escolha de aproveitar mais aquilo que sempre desejamos viver.

Isso me faz pensar em quantas vezes desejamos alguma coisa, mas nossas prioridades ainda estão construindo uma realidade diferente.

Queremos cuidar mais de nós, mas continuamos nos deixando por último.

Queremos começar alguma coisa, mas sempre adiamos.

Queremos viver novas experiências, mas usamos nosso tempo e nossos recursos em outras direções.

Nem sempre existe algo errado nisso.

Cada fase da vida pede escolhas diferentes.

Mas existe uma pergunta que tenho feito cada vez mais:

as escolhas que estou fazendo hoje estão me aproximando da vida que quero viver?

Escolher também é escolher novamente

Talvez uma das coisas mais bonitas da liberdade seja perceber que podemos escolher novamente.

Aquilo que foi prioridade ontem não precisa necessariamente continuar sendo prioridade hoje.

Podemos reorganizar.

Podemos mudar de direção.

Podemos perceber que queremos outra coisa.

E podemos começar a criar espaço para essa nova escolha.

Sustentar uma decisão não significa ficar presa a ela.

Significa assumir a responsabilidade pelo caminho enquanto ele ainda fizer sentido.

E ter coragem de escolher novamente quando percebermos que não faz mais.

Talvez por isso eu esteja entendendo liberdade de uma forma diferente.

Liberdade não é apenas poder fazer o que quero.

É perceber o quanto minhas escolhas participam da construção daquilo que vivo.

É entender que posso ouvir outras pessoas sem entregar a elas a decisão sobre a minha vida.

É escolher com mais consciência aquilo que quero alimentar, priorizar e construir.

Hoje, estou vivendo uma cena que um dia imaginei

Enquanto olho para o mar ao lado do meu marido, existe uma sensação muito especial.

Porque eu me lembro da mulher que um dia sonhou em morar fora.

Que imaginava conhecer novos lugares.

Que queria descobrir o mundo.

E hoje uma parte daquele sonho está acontecendo diante dos meus olhos.

Talvez seja exatamente isso que eu esteja aprendendo.

Os sonhos não se realizam apenas quando desejamos muito alguma coisa. Eles também vão tomando forma através daquilo que escolhemos construir todos os dias.

Consciente ou inconscientemente, estamos escolhendo o tempo todo.

E cada escolha nos leva para algum lugar.

Hoje, algumas das minhas me trouxeram até aqui.

Para uma praia na Itália.

Ao lado do meu marido.

Conhecendo mais um lugar que um dia existiu apenas na minha imaginação.

E talvez seja por isso que essa viagem represente tanto para mim.

Não é apenas sobre chegar a um novo destino.

É sobre reconhecer, mais uma vez, que estou vivendo uma vida que um dia comecei apenas sonhando.

E que agora quero continuar escolhendo, criando e sustentando.

Um passo por vez.

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