A vergonha quase roubou o meu dia

Ás vezes, não é a dor que nos faz parar. É o medo de sermos vistos quando estamos vulneráveis.

Às vezes, o maior machucado não aparece no corpo.

Ele aparece na vontade de desaparecer.

Ontem eu caí de patinete.

Machuquei a perna, a mão e um pouco do rosto. Não foi um acidente grave, mas foi o suficiente para me assustar.

Na hora, doeu.

Depois, chorei.

À noite dormi mal e, quando acordei, a primeira vontade que tive foi cancelar tudo o que havia planejado para o dia.

Minha caminhada.

Minha aula de tênis.

O churrasco com os amigos.

Eu dizia para mim mesma que era por causa da dor.

Mas, quando parei para olhar com sinceridade para o que estava sentindo, percebi que havia algo muito maior.

Eu estava com vergonha.

Vergonha de aparecer com o rosto machucado.

Vergonha de responder à pergunta inevitável: “O que aconteceu?”

Vergonha de imaginar que alguém pudesse pensar que eu tinha sido descuidada ou irresponsável.

Como se uma queda comum dissesse alguma coisa sobre quem eu sou.

Foi então que me fiz uma pergunta simples:

O que eu ganho se desistir de viver o meu dia?

A resposta veio quase imediatamente:

Nada.

Pelo contrário.

Eu só estaria fortalecendo uma versão de mim que prefere se esconder sempre que algo foge do controle.

E essa não é a pessoa que eu quero alimentar.

Então decidi continuar.

Fui caminhar.

Joguei tênis.

Encontrei meus amigos.

Não porque eu não estivesse machucada.

Eu estava.

Mas percebi que o meu maior limite, naquele momento, não era físico.

Era emocional.

Os arranhões estavam na pele.

A vergonha, se eu permitisse, poderia ficar muito mais tempo.

Quantas vezes deixamos de viver experiências, encontrar pessoas ou seguir nossos planos não porque realmente não podemos, mas porque temos medo do julgamento?

Quantas vezes transformamos um pequeno tropeço em motivo para desaparecer?

Talvez a maioria das nossas desistências não aconteça por falta de força.

Aconteça porque acreditamos que precisamos parecer sempre fortes.

A vida não exige isso.

Ela apenas continua.

E nós podemos escolher continuar com ela.

Ontem eu não venci uma corrida.

Não bati um recorde.

Não fiz nada extraordinário.

Eu apenas escolhi não deixar que a vergonha decidisse por mim.

Talvez seja isso que significa amadurecer.

Entender que cair faz parte da caminhada.

Levantar também.

Há dias em que a coragem não é fazer algo grandioso.

É simplesmente aparecer, mesmo quando tudo dentro de você diz para se esconder.

Porque a queda durou apenas alguns segundos.

Mas a decisão de continuar foi o que definiu o meu dia.

E talvez seja isso que realmente defina uma vida.

Não o número de vezes que caímos.

Mas quantas vezes escolhemos não deixar que uma queda diga quem seremos no dia seguinte.

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